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Dr. Joares May, colaborador da nossa série ecológica – ecco. – foi recentemente entrevistado, aonde falou um pouco sobre o caso do leão Cecil, sua importância e os efeitos de sua morte no mundo todo. (Texto: jinews)

 

 

A conservação de grandes felinos teve novas atenções no mundo todo. Tudo devido à morte de um animal. Não estou falando de um simples leão, mas o embaixador dos leões no Zimbábue, Cecil. Em maio de 2008, no Parque Nacional de Hwange dois leões adultos de 5 anos foram capturados e equipados com um rádio colar de monitoramento, por um grupo de pesquisadores liderados por David Macdonald e Andy Loveridge da universidade de Oxford da Inglaterra, em parceria com instituições do Zimbábue e internacionais. Um deles era Cecil.
Os projetos de conservação de leões na África lutam há anos pela conservação destes grandes felinos, como este projeto no Parque Hwange que iniciou em 1999. Lá, estes animais sempre foram tratados como feras a serem temidas por atacarem o gado ou mesmo humanos, tanto que em algumas tribos o ritual de passagem do jovem para a vida adulta ocorre por meio da morte de um leão pela a lança do novo guerreio. Lacunas de conhecimento sempre foram obstáculos para os biólogos entenderem o comportamento destes animais. Técnicas para acompanhar os leões foram desenvolvias ao longo dos anos, porém o monitoramento 24 horas parecia impossível. Nos últimos anos o desenvolvimento de colares permitiu este monitoramento. Os colares nada mais são que coleiras equipadas com um GPS e uma bateria, que registram as coordenadas das localizações dos animais várias vezes ao dia e que é enviada a um satélite. A informação é rapidamente processada e encaminhada ao computador do pesquisador para análise.

 

Cecil era um animal monitorado desde 2008. Quando foi capturado os pesquisadores não o conheciam. Com seus 5 anos de vida na época, era um animal errante e não possuía um bando. Andava na região a procura de fêmeas para se acasalar. No final de 2008, tomou o grupo de um leão mais velho com a ajuda de seu irmão. Eles tiveram as suas proles, protegeram o bando e em junho de 2009 o irmão de Cecil foi morto nas fronteiras do parque. Logo em seguida ele foi expulso de seu bando por 3 jovens leões que formavam uma coalizão de irmãos, e saiu novamente a procura de fêmeas. Cecil teve um novo bando por 3 anos.

 

Em 2013, quando dois irmãos da coalizão que expulsou Cecil, foram mortos por caçadores na região e sobrou Jericho. O improvável aconteceu quando os dois leões antes inimigos formaram se uniram. Como eram 2 machos adultos protegendo um grupo de fêmeas, esta aliança forte permitiu que os animais apresentassem um comportamento mais tranquilo também quanto a presença dos carros de pesquisadores. O estudo da coalizão de leões não irmãos, que foram inimigos e depois parceiros na liderança do grupo, permitiu conhecer alguns segredos destes animais.

 

Ao longo do tempo e com regras rígidas de conduta, carros do parque e de empresas de turismo da região eram levados até o Parque Hwange para conhecer o bando de leoas e filhotes de Cecil. Pela sua aparência majestosa, ele sempre se destacava no meio do grupo. Cinegrafistas e fotógrafos do mundo todo foram lá para registrar o grupo de Cecil. Com fotos em revistas de natureza e documentários que eram exibidos em canais de televisão, cada vez mais turistas foram ver estes animais de perto. Pessoas se amontoavam nas traseiras de carros de observação, com o sol africano ao máximo e tinham a oportunidade de ver com os próprios olhos o mesmo leão que eles viram em programas de televisão ou em matérias de revistas.

 

O grande conflito que existe na África, assim como ocorre no Brasil em relação à onça-pintada, refere a morte de criações domésticas e principalmente o gado por grandes felinos. Quando o projeto cumpriu sua tarefa de observar os animais e aprender sobre a biologia destes sem interferir, ele viabilizou o turismo ecológico. A técnica de aproximação com carros e monitoramento dos avistamentos é bastante utilizada na África, porém na região do Parque de Hwange tudo começou com o projeto de leões. E Cecil era a grande estrela. Ele significava turismo, que é a grande injeção de dinheiro na região, servindo de compensação às perdas econômicas geradas aos produtores rurais, forma de emprego para a população que trabalha nos hotéis, transporte de turistas, guias locais, restaurantes e comércio.

 

Tudo isto foi sacudido pela necessidade de uma pessoa em atirar uma flecha no animal. Cecil foi atraído por guias locais, pessoas que conheciam a região, até uma fazenda fora da área do parque. O leão foi abatido e transformado em troféu. Milhares de turistas tinham o seu troféu em câmeras fotográficas, filmadoras e celulares, mas agora o cidadão teria a sua cabeça na parede, ou seu tapete no chão da sala, ou queimaria o animal para destruir as provas do crime.

 

O projeto de conservação de leões no Parque Nacional de Hwange continua, assim como outros projetos pelo mundo. Um deles é o Projeto Onçafari no Refúgio Ecológico Caiman no estado no Mato Grosso do Sul. O onçafari captura onças para o monitoramento com colares de GPS, habitua os animais ao carro com as mesmas técnicas utilizadas na África e atua diretamente no conflito entre as onças e os pecuaristas.

Joares May Júnior é médico veterinário especialista em doenças de animais de vida livre. Trabalha com captura e monitoramento de carnívoros há onze anos, no Brasil e no exterior. Professor de animais selvagens no curso de Veterinária da Unisul, veterinário responsável pelo projeto Onçafari no Pantanal, onde trabalha com conservação e ecoturismo de onça-pintada.

 

Texto: Assessoria de imprensa jinews

Fotos: Divulgação